Todo currículo agora é escrito com IA. Como contratar bem nesse cenário?

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Pedro Gomes
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Contratar com IA virou padrão dos dois lados do processo, e é aí que mora o problema. A empresa usa um sistema para ler currículo em escala. O candidato usa a mesma tecnologia para escrever o currículo que aquele sistema quer ler. No fim, uma máquina avalia o texto produzido por outra máquina, enquanto o gestor decide com base em documentos que já não dizem quem é bom.

Uma máquina lendo o texto de outra máquina

O currículo sempre foi um documento de marketing pessoal. A diferença é que hoje ele é produzido por uma ferramenta que conhece exatamente o vocabulário do anúncio da vaga.

Segundo o Índice de Confiança da Robert Half, gestores de contratação relatam aumento de currículos exagerados ou falsos e também de candidatos sem qualificação chegando às etapas seguintes. Ao mesmo tempo, quase 70% desses gestores admitem que ainda não adotaram nenhuma medida formal para lidar com os riscos ligados à IA no processo.

O cenário tende a ficar mais complexo. O Gartner projeta que, até 2028, um em cada quatro perfis de candidatos no mundo possa ser falso, criado com apoio de IA. Em pesquisa com 3 mil candidatos, aliás, 6% admitiram ter participado de fraude em entrevista, seja se passando por outra pessoa, seja com alguém respondendo por eles.

Antes de tratar todo candidato como suspeito, porém, vale uma distinção. Usar IA para revisar texto e se preparar melhor é adaptação, e boa parte do mercado faz isso. Fraude é outra coisa: identidade falsa, resposta ao vivo ditada por terceiros, experiência inventada. Confundir os dois casos empurra para fora do funil justamente quem se preparou.

Diagnóstico: sinais de que contratar com IA já quebrou o seu funil

Três sintomas costumam aparecer juntos, e todos são visíveis no seu próprio sistema.

Em primeiro lugar, o volume de candidaturas subiu de forma anormal, porque candidatar-se em massa ficou barato. A taxa de aprovação na triagem também subiu, já que quase todo currículo agora bate com as palavras do anúncio. E o indicador que importa, a qualidade de quem foi contratado, caiu ou ficou instável, com mais desligamentos nos primeiros meses.

Se os três sintomas aparecem na sua operação, o filtro de entrada parou de filtrar. Ele continua funcionando, no entanto, mede outra coisa: fluência em IA, e não capacidade de fazer o trabalho.

Vale olhar também para o outro lado do balcão. Pesquisa do LinkedIn citada pelo Portal Contábeis mostra que 29% dos brasileiros dizem não entender como a IA é usada nos processos seletivos e 28% desconfiam que a avaliação seja justa. Ou seja, a desconfiança é mútua, e ela encarece a contratação para todo mundo.

Priorização: por onde mexer primeiro

Redesenhar tudo de uma vez não funciona, principalmente em empresa que contrata algumas vagas por mês.

Comece pelas posições em que o erro custa caro: quem lida com dinheiro, com dado sensível, com cliente na ponta ou com decisão técnica difícil de auditar. Em seguida, olhe as vagas de alto volume, porque nelas o ganho de método se multiplica rápido.

Redesenho: contratar com IA sem terceirizar o critério

A regra é simples de enunciar e trabalhosa de implantar: a IA organiza a fila, ao passo que a avaliação acontece na execução.

Sempre que possível, substitua a leitura de currículo por prova de trabalho. Uma tarefa curta, parecida com o que a pessoa fará de fato, resolve mais do que qualquer análise de texto. Em vaga administrativa, funciona um exercício com planilha real. Já no comercial, vale uma simulação de abordagem. Em posições técnicas, um problema pequeno com o contexto do seu negócio dá a resposta.

Estruture a entrevista. Mesmas perguntas, mesma ordem, mesma escala de avaliação para todos os candidatos daquela vaga. Entrevista estruturada existe há décadas na literatura de seleção, contudo poucas empresas médias aplicam, e é ela que devolve comparabilidade ao processo.

Pergunte sobre a execução, e não sobre o resultado. “Como você fez” pede detalhe operacional que ninguém decora, ao passo que “qual foi o resultado” aceita qualquer resposta bem escrita. Quando o candidato descreve o passo a passo, o contexto e o que deu errado no caminho, a conversa fica difícil de simular.

Verificação de identidade: o momento certo no funil

O equilíbrio costuma ficar perto da decisão final, quando restam poucos finalistas. Nesse ponto, uma conversa por vídeo com câmera aberta, uma etapa presencial quando faz sentido e a checagem de referências resolvem a maior parte dos casos, sem tratar toda a base como ameaça.

Atenção ao limite legal, porque no Brasil ele é estreito. O Tribunal Superior do Trabalho já tratou a exigência de certidão de antecedentes sem relação direta com a função como dano moral presumido. Consulta a bases de crédito para fins de contratação também encontra restrição sob a LGPD, salvo quando a função envolve manuseio de valores. Fraude é problema real, mas o remédio precisa caber na lei.

Sustentação: o que automatizar e o que jamais automatizar

Existe uma linha clara, e o público brasileiro é bastante enfático sobre ela. No Datafolha, 79% consideram inadequado usar IA em decisões de contratação e demissão.

Automatize o operacional, ou seja, triagem por requisito objetivo, como registro profissional, disponibilidade e localidade, além de agendamento, comunicação com candidato, atualização de sistema e organização de evidências. Esse trabalho consome o dia do RH e não exige julgamento.

Não automatize o julgamento. Ranking de “fit”, nota final de candidato e recomendação de desligamento pertencem a pessoas, com critério registrado. Vale lembrar que decisão automatizada sobre pessoas dá ao titular o direito de pedir explicação, o que exige rastro do que foi considerado.

É nessa faixa operacional que um departamento de IA entrega resultado sem tocar no critério. A AI Infinity integra os sistemas de RH que hoje não se falam, opera as etapas repetitivas do funil e devolve ao recrutador o tempo de avaliar gente em execução. Não opera ferramentas. Opera decisões. Os dados dos candidatos ficam isolados por cliente, sem alimentar modelo de terceiro, o que importa muito em uma área que trata dado sensível o tempo inteiro.

Medição: como saber se você passou a contratar com IA melhor

Tempo de fechamento é a métrica mais fácil de melhorar e a menos importante nessa mudança.

Em vez disso, acompanhe a qualidade da contratação: desempenho aos 90 dias, permanência no primeiro ano e avaliação do gestor direto sobre o acerto da escolha. Esse conjunto mostra se contratar com IA melhorou a decisão ou apenas acelerou o funil. Acompanhe também a taxa de aprovação por etapa, porque ela revela onde o filtro afrouxou. Por fim, meça a experiência do candidato, já que reputação de processo circula rápido e afeta a próxima vaga.

Um dado ajuda a dimensionar o risco de não medir. Estudo da Grant Thornton indica que 63% das empresas no Brasil sofreram ao menos uma fraude nos últimos doze meses. Em 90% dos casos, falhas de controle interno criaram a oportunidade. Contratação frouxa é uma dessas portas.


FAQ: Contratar com IA

1. Devo proibir o uso de IA pelos candidatos?

Proibir não funciona e nem é desejável. Deixe claro o que é aceito, como usar IA para revisar o texto, e o que não é, como receber respostas ao vivo durante a entrevista. Depois, desenhe etapas que avaliem execução, porque elas tornam a regra autoaplicável.

2. Contratar com IA respeita a LGPD?

Respeita, desde que a base legal esteja definida, o candidato saiba que existe triagem automatizada e a empresa guarde os dados pelo tempo necessário, com acesso restrito. Decisão automatizada que afeta a pessoa exige cuidado extra, pois o titular pode pedir explicação sobre os critérios.

3. Isso funciona em empresa que contrata poucas vagas?

Funciona, e costuma dar retorno mais rápido. Com volume baixo, cada contratação errada pesa muito no resultado, portanto entrevista estruturada e prova de trabalho valem ainda mais.

4. Quanto tempo leva para ver diferença?

O sinal aparece em dois ciclos de contratação. Qualidade aos 90 dias e permanência no primeiro ano são indicadores lentos por natureza, embora a taxa de aprovação por etapa mude já no primeiro processo redesenhado.

5. E se o candidato reclamar da avaliação automática?

Transparência resolve boa parte. Informe no anúncio que existe triagem automatizada, explique quais critérios objetivos entram nela e garanta revisão humana quando o candidato pedir. Isso reduz atrito e melhora a reputação do processo.

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